
Vivemos cada vez mais conscientizados acerca
da nossa dor e finitude. Nossa tendência é escarparmos, a todo custo, de experiências
tristes aderindo a tudo que possa proporcionar algum prazer. Mesmo com todo
avanço tecnológico e material que permite administrarmos o tempo para nos
dedicarmos as atividades mais prazerosas, no diluímos como pessoas, pois
queremos adequar todas as nossas atividades somente àquilo que pode nos
proporcionar vantagens imediatas. Zygmunt Bauman, pensador polonês de grande vigor
intelectual, se refere à modernidade como “sociedade liquida”. Isto porque os
valores que a cultura ocidental considerava como nobres e elevados estão se
diluindo como água que se escorre das nossas mãos, sem que sejamos capazes de
detê-la. A vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incertezas
constantes. Bauman afirma que a vida moderna é uma versão perniciosa da dança
das cadeiras. O prêmio nessa competição é a garantia temporária de ser excluído
das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo.
Quando estou em um shopping,
supermercado, rodoviária, aeroporto ou no centro de uma grande cidade procuro,
sempre que possível, visitar as livrarias. Corro meus olhos pelos livros
expostos logo na entrada, que são os mais procurados, e fico perplexo. Sempre
há uma boa quantidade de livros de autoajuda ao lado de livros de autores
evangélicos, católicos e bíblias de estudos. Há alguns anos isso era
impensável, mas hoje é um sinal do crescimento evangélico e religioso em nosso
país. No entanto, diante de tanta exposição, fico me perguntado se a fé
evangélica que temos hoje não é uma “fé liquida”. A maioria dos cristãos estão
sempre procurando novidades no mercado religioso para evitar serem excluídas do
grupo.
A Igreja Cristã tem no
Pentecostes a sua certidão de nascimento. Durante o primeiro século, se manteve
fiel. Sofreu muita perseguição por confessar ser Jesus o Senhor. Com a
“conversão” do Imperador Constantino a igreja passou a ser a religião oficial
do Império. Não foi mais perseguida, mas começou a se desviar dos ensinamentos
do mestre. Na Idade Média a salvação era comercializada para arrecadar fundos
para a construção da basílica de São Pedro. As doutrinas e práticas originais
foram se modificando e se afastando sensivelmente da Bíblia.
Muitas vozes se levantaram
clamando por uma reforma na Igreja. Homens como João Huss, e tantos outros,
foram mortos por defenderem seus ideais de conduta e fé. Dizem que no cárcere,
sentenciado pelo papa para ser queimado vivo, João Huss disse: "Podem
matar o ganso (huss em alemão é ganso), mas daqui a cem anos, Deus suscitará um
cisne que não poderão queimar". João Huss morreu em 1415. Aproximadamente cem anos depois surge o cisne, um
monge agostiniano chamado Lutero, preocupado com o problema da salvação.
Durante anos seguidos, estuda a Bíblia e descobre na carta de Paulo aos
Romanos, que a salvação é através da fé em Jesus Cristo. Tradicionalmente, 3l
de outubro de 1517 é aceita como a data do nascimento do movimento reformador.
Neste dia Martinho Lutero afixou as noventa e cinco teses nas portas da
Catedral de Wittemberg. Suas ideias se espalharam rapidamente como fogo em
palheiro. Provocaram mudanças profundas na igreja e na cultura ocidental.
Neste ano a Reforma
Protestante completará 499 anos. Ao comemorar a data precisamos reafirmar os
ensinos do movimento reformista. A época que vivemos, chamada por alguns de
pós-modernidade, e por Bauman “sociedade liquida”, possui algumas características.
As mais aparentes são a falta de disposição para assumir compromissos, não se
fixar a uma relação afetiva, a uma ideologia política, a um grupo de interesse,
a uma instituição religiosa. Estas são algumas posturas contemporâneas. A
adesão a fé é meramente mercantil e interesseira. A frequência às reuniões da
igreja é estimulada pelo desejo de obter sucesso profissional, prosperidade,
cura física e emocional. Não importa o conteúdo dessa fé, ela tem que produzir
resultados imediatos.
O mundo moderno e a
igreja de nossos dias precisam de pessoas como Lutero. Pessoas, que possuídas
por uma fé genuína, acreditam, ousam, pensam e amam a Deus acima de qualquer
coisa. Reformadores conectados com um mundo em constantes mudanças e que não
têm preguiça de ler e estudar com seriedade, de ir além, de questionar seu
tempo e confrontá-lo com as Escrituras. Pessoas fiéis a Jesus e verdadeiramente
transformadas pelo Espírito Santo. Pessoas conscientes da atualidade, da
urgência e da necessidade do poder transformador do evangelho.
Hoje, ao
comemorarmos mais um ano da reforma, minha oração é que o mesmo Espírito Santo
que agiu na vida de Lutero e o levou a influenciar com o evangelho a sua
geração, venha sobre nós também, levando-nos a reformar a fé cristã de nossos
dias. Amém!
Soli Deo Gloria
Rev. Ezequiel Luz